A nutrição clínica materno-infantil e sua importância antes da gravidez

nutrição clínica

A alimentação, no geral, previne doenças. E a verdade é que a fase da medicina curativa passou: hoje é preciso trabalhar mais com a medicina preventiva  – evitar as doenças é melhor e mais econômico, já que não é necessário lidar com internação e medicamento, por exemplo, além de garantir a manutenção da saúde.

O ser humano que cuida da alimentação, da atividade física e do sono vai ter sucesso – estes são os segredos para uma vida saudável. Claro que existe a questão mental e o estresse, que muitas vezes podem causar doenças, mas ter esses três cuidados iniciais já é um ganho fundamental para qualquer organismo.

E quando falamos de pediatria? Devemos falar de prevenção no adulto. Isso mesmo! Se você cuida da alimentação da criança, você previne que ela seja um adulto doente e evita o surgimento de doenças no pequeno lá na frente.

Lenycia Neri, nutricionista do ambulatório do Instituto da Criança e coordenadora da pós-graduação de nutrição clínica materno-infantil do Hospital das Clínicas, é quem explica: “Quando comecei a trabalhar em pediatria era assim: ‘cuidar da pediatria é cuidar do futuro’ – mas avançou! Hoje, já se sabe que não é só da criança, tem que cuidar de dentro da barriga; na verdade, até um pouco antes: desde o período da pré-concepção”.

É essencial tratar a saúde da mãe e do pai, pois a formação do bebê ocorre no útero da mulher e metade da carga genética é do homem. Isto é, já carrega naquela formação da concepção a carga genética de saúde do pai e da mãe.

Por isso, hoje fala-se de pré-concepção, a alimentação durante a gestação e dos primeiros dois anos de vida do bebê como fator determinante para a saúde do adulto – período chamado de primeiros mil dias, e agora atualizado para mil e cem dias (mil dias desde a concepção até os dois anos da criança, mais os cem dias antes de preparação dos pais). Ou seja, a gestação é fundamental para prevenir as doenças no futuro!

 

E como implementar a alimentação saudável?

Dentro da alimentação saudável, o mais importante, como diz o Guia Alimentar da População Brasileira, está em comer comida de verdade. E o que seria? Alimentos que a natureza oferece: frutas, legumes e verduras e, ainda, diminuir industrializados; ou seja, tudo que vem do “pacotinho”, desconfie! “Desembale menos, descasque mais!”, orienta Lenycia Neri.

A população moderna perdeu o conceito de cozinhar e come tudo pronto; porém, quanto mais você cozinha, mais você sabe o que vai dentro da refeição e consegue controlar ingredientes e nutrientes. E como tudo isso afeta a gestante?

De acordo com Lenycia, existem alguns estudos investigando a relação da alimentação materna com as doenças do espectro autista. Também, são muito estudadas as bactérias que estão no intestino e a formação de pré-disposição a diabetes e obesidade, entre outras condições. “Por isso, deve-se cuidar da alimentação para ter certeza de que essas bactérias sejam ‘do bem’”, explica. Quando você consome fibras (presente nas frutas, legumes e verduras), elas alimentam essas bactérias benéficas, protegem mais as barreiras do intestino e só entra no organismo o que precisa. Se ela não faz essa barreira boa do intestino, entra qualquer coisa, o que aumenta o risco de infecção e inflamação.

A alimentação tem consequências mais extensas do que se imagina; ela auxilia desde a prevenção de doenças até o tratamento. Hoje é a complicação que leva as pessoas ao nutricionista, e não a prevenção – aos poucos, este cenário está mudando, e o ideal é ser sempre assim: uma nutrição clínica desde o início! “Se pudermos iniciar uma alimentação saudável já na gestação, iremos prevenir complicações futuras”, ela comenta.

 

E por onde começar?

A primeira coisa que a mulher deve fazer quando pensar em engravidar é diminuir os alimentos industrializados e começar a cozinhar! “E aí, nós, como nutricionistas, temos a missão de mostrar a facilidade dos alimentos saudáveis, apresentar de maneira prática que dá para ser saudável”, conta Lenycia.

Impossível, difícil? É só focar na objetividade: pegue uma abobrinha, coloque no forno e vá tomar banho. Quando voltar, já assou; aproveite para fazer o arroz; enquanto ele cozinha, coloque alguns legumes no vapor e descongele o feijão, que você fez no fim de semana. Já organiza a cozinha e pronto: em 15 minutos fez tudo! E ainda aproveita para fazer uma quantidade no jantar que dê para levar de marmita no dia seguinte.

A gestante também precisa ter uma preocupação de comer de três em três horas, porque ela está formando o bebê e não pode faltar nutriente; por ter azia e enjoo, é importante sempre fazer uma pausa, mastigar bem e comer devagar.

Alguns estudos mostram que, quando mulheres comem de forma saudável durante a gestação e o aleitamento materno, o filho tende a gostar mais e aceitar melhor estes alimentos quando começa a introdução alimentar! “A mãe quer que o filho coma bem? Então ela precisa comer bem – dar sempre o exemplo”, orienta. Uma em cada três crianças hoje são obesas – e mais: 80% das crianças têm obesidade se o pai, mãe ou responsáveis têm também. E para mudar este cenário, todo mundo precisa mudar junto!

Caso a mulher não tenha hábitos saudáveis, mas decidiu mudar isso porque quer engravidar, ela vai adquirir os benefícios? “Sempre é tempo de começar! A velocidade de crescimento do bebê é rápida, é há intensa divisão celular e formação, então se falta nutriente no organismo, ele vai dividir da forma que der. O bebê vai sugar os estoques da mãe e, se não tem, será maior a probabilidade de manifestar alguma doença no futuro”, explica Lenycia.

Muitos médicos começaram a estudar a nutrição – e, de acordo com a nutricionista, este é o caminho. No futuro, até a questão de erros genéticos poderá ser aprimorada com a alimentação. Com ela, ainda dá para prevenir doenças crônicas, como diabetes e hipertensão. O que mais mata hoje em dia? Doença do coração! E todas são prevenidas com o quê? A alimentação – de novo!

A nutricionista indica: “Tenha cuidado com você! Caminhe, dance, pedale, faça o que gosta! Exercício e alimentação têm que ser algo prazeroso todos os dias”.

 

A Nutrição Clínica Materno-Infantil como formação

Foi pensando em todos estes benefícios da alimentação desde a pré-concepção que a Escola de Educação Permanente (EEP) criou o Curso de Especialização em Nutrição Clínica Materno-Infantil. Ele tem sua primeira turma neste mês de agosto, com duração de um ano e meio e será realizado uma vez por mês.

“Vamos falar de temas que são novidade, como os probióticos (se vai melhorar a flora intestinal), criança vegetariana/vegana, como trabalhar com creche e consultório, entre outros. Haverá muita aula prática, discussão de casos, trabalhos; não tem outro curso específico como este no Brasil”, especifica Lenycia.

As inscrições estão encerradas, mas novas turmas serão formadas no futuro. Acompanhe o blog da EEP e suas redes sociais para novidades!