Terapia Ocupacional possibilita reinserção social adequada do paciente

Terapia Ocupacional

Quão impossível parece possibilitar a uma criança, adolescente ou adulto com um transtorno mental a atuação e convivência na sociedade de forma tranquila e saudável? Para muitas pessoas, é mais fácil desistir e deixar esses pacientes de lado. Para a Terapia Ocupacional, não há barreira tão grande que não possa ser transpassada.

A atuação da Terapia Ocupacional é ampla – esta área da saúde tem grande demanda e ocupa posição significativa em campos variados entre si, como os de neurologia, saúde mental, reabilitação física, queimados e intervenção precoce, entre outras. A intervenção acontece em unidades de internação, hospitais-dia, CAPs, ambulatórios especializados, clínicas, UBS, centros de convivência, etc.

No Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP), o hospital-dia é dividido em dois: um para os adultos, que também funciona como um centro de reabilitação, e um infantil, onde a Dra. Adriana Vizzotto presta serviço, além de atuar como Diretora Técnica de Saúde do Serviço de Terapia Ocupacional do IPq. Ela também é responsável por todos os cursos de Terapia Ocupacional em Saúde Mental administrados pela Escola de Educação Permanente (EEP).

“Aqui atuamos na área da saúde mental; atendemos pacientes com transtornos neuropsiquiátricos de alta complexidade. De fato, o HC é um local de atenção terciária na saúde, então recebemos casos muito graves, de alta complexidade”, ela apresenta.

Os profissionais do IPq contam com unidades de internação especializadas e atuam nas ligadas a transtorno alimentar, psicoses graves, programa de terceira idade, depressão, ansiedade e psiquiatria da infância e adolescência.

O objetivo da Terapia Ocupacional é colaborar para que o indivíduo com transtorno mental possa retomar suas atividades cotidianas. Geralmente, os pacientes perdem capacidade de autonomia e independência, já que os transtornos psiquiátricos afetam muito a questão social e laboral deles.

“É comum conhecer hoje alguém que desenvolveu depressão e não conseguiu mais trabalhar. Esse paciente interrompe a parte laboral, e nosso objetivo é atuar para que ele retome suas atividades. O desempenho ocupacional também fica prejudicado, pois são pacientes que apresentam perdas cognitivas – de atenção, memória, funcionamento executivo, planejamento e iniciativa. Então, atuamos em reabilitação cognitiva-funcional e também na reinserção dos pacientes na sociedade. O trabalho com as crianças que adquirem um diagnóstico muito precocemente é a melhora de aspectos cognitivos e funcionais para sua inserção na escola e na vida cotidiana ”, explica Dra. Adriana.

Os quadros são revertidos com a atuação da Terapia Ocupacional em conjunto com uma equipe multidisciplinar, que engloba o psicólogo, assistente social, psiquiatra e enfermagem, entre outros.

Para identificar e classificar o grau de comprometimento dos pacientes, são aplicados protocolos de avaliações para verificar a cognição e a funcionalidade deles – para avaliar como conseguem realizar as atividades do dia a dia. Por meio dessas avaliações, o terapeuta ocupacional obtém informações sobre a dimensão dos prejuízos de fato, e auxilia no diagnóstico.

 

Tratamento infantil: família é essencial

A área infantil no IPq tem três setores (ambulatório, unidade de internação e hospital-dia infantil), e a Terapia Ocupacional hoje está presente nas duas últimas, e aguarda abertura de vagas para contar com profissionais no ambulatório também.

“No hospital-dia infantil, atuo em consonância com a equipe multidisciplinar; é uma intervenção de semi-internação em que o paciente fica de segunda a sexta, das 8h às 15h. Cada paciente tem seu programa terapêutico de intervenção intensivo de três meses, e a adesão do paciente é muito importante – atendemos crianças de 6 a adolescentes de 17 anos. Todos os profissionais que atuam no HDI avaliam e fazem o seu relatório clínico,  e então é dado o diagnóstico situacional para a família”, diz.

Como já se espera, o papel da família é essencial no contexto; é obrigatória a presença de um familiar que tenha grande proximidade com a criança/adolescente, pois muitas vezes os profissionais identificam que ele apresenta sintomas complexos que não são só dele; e pode estar inserido em uma dinâmica familiar conflituosa ou desorganizada. “Você nunca trata só a criança/adolescente; os pais recebem orientação, psicoeducação, intervenções psicoterápicas breves. A ideia é que os pais aprendam a manejar melhor as crises que as crianças/adolescentes apresentam, como não conseguir ir à escola, ter agressividade, gerar conflitos, não conseguir ficar parado na sala de aula, sofrer situações de bullying, tentativas de suicídio, etc.”.

É preciso orientar os pais a ensinar os filhos a cumprir suas atividades básicas de vida diária relacionadas ao autocuidado, até as mais complexas que são as atividades instrumentais (práticas) de vida diária. “Há crianças com 13 anos que não sabem amarrar o sapato ou usar um talher – uma das nossas funções é fazer o treino de atividade de vida diária (AVD)”, completa Dra. Adriana. Em um segundo momento, olha-se para o âmbito cultural e de lazer.

Tanto no hospital-dia infantil quanto na unidade de internação, os casos são muito graves – transtorno alimentar, depressão, transtornos psicóticos, esquizofrenia, transtornos afetivos, de conduta, déficit de atenção, do espectro autista, ou algum quadro de deficiência intelectual que exige trabalho da parte comportamental, como no caso de crianças muito agressivas. O que diferencia uma unidade da outras é o grau de gravidade, que necessitará que a criança/adolescente fique em vigilância integral.

 

A importância da funcionalidade

Entre diversos programas de atendimento, o ambulatório do IPq oferece um Programa de Atividade Personalizada, para idosos com demência moderada e sintomas comportamentais, mas que pode ser aplicado em outros quadros. “Esta abordagem ajuda a diminuir os sintomas comportamentais como agitação ou apatia, minimizando a necessidade de medicação para esses sintomas. O cuidador é treinado para identificar e controlar seu próprio estresse relacionado à sobrecarga do cuidador e a ajustar sua forma de comunicação e as suas expectativas em relação ao desempenho do idoso. Isto ajuda o idoso a se engajar em atividades, melhorando a qualidade de vida dele e de sua família”, conta a Dra. Patrícia Cotting Homem de Mello, terapeuta ocupacional e chefe do ambulatório.

O ponto de partida para o tratamento é uma avaliação qualitativa e quantitativa: “Temos que considerar que o ser humano é ocupacional. Nossas atividades estão intimamente ligadas com o modo como existimos e nos relacionamos com o meio externo. Vários fatores podem interferir na nossa ação, por isso é preciso identificá-los inclusive utilizando instrumentos objetivos”, completa Dra. Patrícia.

Ela lembra que a funcionalidade é um indicador de saúde da Organização Mundial da Saúde (OMS), tanto por ser um indicativo de adoecimento como também pela falta de atividade ser um fator que pode levar a pessoa a um declínio funcional. O fato é que todos os transtornos mentais podem trazer prejuízo cognitivo com impacto na funcionalidade.

“As avaliações permitem que identifiquemos o que faz aquela pessoa ter dificuldades em realizar atividades, desde as mais básicas até às mais complexas. Também atendemos no ambulatório adultos com prejuízo funcional grave ou com funcionalidade alta, mas com dificuldades de desempenho ocupacional – que trabalham, saem de casa, se alimentam, mas têm dificuldades. O programa de reabilitação é bem customizado; seguimos um referencial teórico bem definido, mas não conseguimos encaixar em um protocolo muito rígido, por conta dessa customização”, explica.

 

Epidemia de depressão?

E por que hoje parece haver uma epidemia de transtornos que afetam a funcionalidade?

O fato é que, antigamente, isso poderia ser subdiagnosticado e o panorama mudou graças aos avanços de exames, medicamentos, abordagem e redução do preconceito. O suicídio, certamente, é hoje trazido mais à tona do que no passado, e a depressão era confundida com falha moral – a pessoa não reage porque é encostada, porque é folgada.

“Eu me questiono o quanto esse aumento ocorre pelo adoecimento como um todo da nossa sociedade”, afirma Dra. Patrícia.

A colega Dra. Patrícia Buchain, terapeuta ocupacional chefe das enfermarias do IPq, completa: “Acredito que, em parte , seja uma resposta ao ambiente, à rotina que vivemos hoje. Temos um acúmulo de atividades e, talvez, o sujeito que tem dificuldade maior no desempenho se depara com uma maior frustração. Vivemos hoje hipervigilantes e em ambientes extremamente demandantes. Os estímulos e as demandas são diversos, e o sujeito que está um pouco aquém do esperado fica com essa sensação de frustração. É uma epidemia”, comenta.

Ela conta que recebe no consultório pessoas que não têm diagnóstico psiquiátrico, mas vivem um momento de desorganização da rotina e atividades de vida diária, e isso tem muito a ver com não dar conta da rotina. “As pessoas têm procurado tratamento muito mais frequentemente do que há 20 anos. Hoje trato pacientes que estão nessa desorganização – há fatores individuais, claro, mas parte desta demanda tem muito a ver com o ambiente”, completa Dra. Buchain.

 

“Tem que gostar de gente”

Atuar na área não é fácil. “Quando você escolhe trabalhar com a saúde, tem que gostar de gente. Tem que ter empatia – se você não se sensibiliza com a necessidade do outro, fica difícil atuar. Por outro lado, também não posso ficar doente com o que vejo e vivo. Por isso, os terapeutas ocupacionais também se cuidam, fazem terapia, para separar o que é seu e o que é do outro. Quem fica nessa área, normalmente, consegue lidar com isso, ou busca ajuda antes de desistir”, afirma Dra. Adriana. Ou seja, mais do que um preparo técnico, é preciso haver um emocional.

O IPq, por ser um hospital escola, oferece um bom preparo. “Atuamos na assistência, ensino e pesquisa. Estamos organizando nosso segundo curso de especialização na área da saúde mental; os alunos vão poder escolher duas ou três áreas em que queiram atuar. Todos os cursos que oferecemos são presenciais, têm carga horária teórica e prática, permite aos inscritos participar de reuniões clínicas no instituto e atuar nas equipes multidisciplinares, além de se especializarem na área da Terapia Ocupacional em Saúde Mental. Nosso foco é a reabilitação cognitiva e funcional”, finaliza.