Plataforma de videogame possibilita posturografia em hospitais do Brasil

posturografia

Você sabe o que é ou já ouviu falar da posturografia? No geral, é a técnica usada para avaliar o controle postural para a compreensão de como está sendo mantido nosso equilíbrio na postura ereta, tão importante para a manutenção das atividades diárias, físicas e laborais.

A posturografia é considerada padrão-ouro quando a postura ereta de uma pessoa é estudada. A variável posturográfica utilizada na avaliação do controle postural estático e dinâmico é o centro de pressão (COP, do inglês), mensurado por plataformas de força.

E foi o grande interesse pela parte postural que fez com que o fisioterapeuta Pedro Claudio Gonsales de Castro, mestre em engenharia biomédica, especialista em RPG pelo método Philippe Souchard e atuante na área da robótica e biomecânica do Hospital das Clínicas, se especializasse e desenvolvesse uma versão bem mais barata do exame, possibilitando seu uso em serviços diversos do Brasil.

Mas, antes, vamos entender a trajetória do especialista!

Pacientes passam por avaliação clínica, que apresentam certa subjetividade na apresentação dos dados, tornando a quantificação imprecisa. “Foi assim que vi a necessidade de tentar analisar a postura de forma quantitativa, mais minuciosa, e procurei outros meios – um deles, que usamos, é o quadro Simetrógrafo”, explica Pedro.

Outro recurso utilizado para essa quantificação era também a foto digital: o especialista pegava imagens e analisava ângulos com alguns softwares. E então cresceu o interesse dele pela análise biomecânica. Em 2006, Pedro entrou em um curso de mestrado em engenharia biomédica, concluído em 2008.

Mestre em processamento de sinais e imagem, em sua dissertação, utilizou um modelo matemático para quantificar oscilação postural, e a energia que o corpo gastava para oscilar; e também usava algumas plataformas de força no laboratório de marcha.

“Neste estudo, nós colocávamos bolinhas no corpo para demarcar e delimitar os segmentos corporais e articulações. Essas bolinhas eram filmadas por câmeras de infravermelho, o que permitia, por meio de um software específico, calcular a posição, movimentos e ângulos destes segmentos corporais e quantificar por um modelo matemático o quanto de energia era gasto. Essa mesma tecnologia é usada na Disney para fazer desenhos”, explica.  

Na rotina de um hospital, esse método é utilizado com intuito de análise do movimento, para um médico prescrever cirurgias, terapias, órteses ou medicações mais adequadas. Por se tratar de um equipamento que requer grande espaço físico, muito caro, com câmeras de alto custo e importadas, não se tornava viável e acessível para uso clínico por profissionais da saúde. 

 

Novo recurso para a posturografia

Quando Pedro estava no mestrado, surgiu o Nintendo Wii: “Fiz um estudo no Instituto de Medicina Física e Reabilitação do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo – IMREA HC FMUSP, no qual eu não utilizava a plataforma do Wii para quantificar, mas para reabilitar pacientes”, conta.

A Nintendo elaborou uma plataforma para tirar as pessoas da inatividade – antigamente, elas ficavam paradas jogando, o que resultava em problemas de saúde em várias partes do corpo. A partir da plataforma de videogame, um joystick controlado pelos pés, as pessoas se movimentam mais para controlar os jogos.

“Na época, fiz um estudo com pacientes que sofreram acidente vascular cerebral (AVC), em que avaliávamos e os colocávamos em uma plataforma muito parecida com o Wii, e o paciente ficava em pé oscilando para analisar o equilíbrio”, lembra.

E por quê? De acordo com Pedro, o equilíbrio é um indicativo do controle do movimento – pacientes com deficiência motora tendem a oscilar mais – e o sistema nervoso central não consegue contrair os músculos de forma adequada. E é nesse âmbito que a maioria dos estudos do equilíbrio é voltada: oscilação corporal; quanto mais oscilação, menor o controle postural.

A partir da evolução de sua pesquisa, na procura por artigos científicos, ele se deparou com estudos de pessoas conectando a plataforma do Wii a programas de computador.

A plataforma de força laboratorial é um recurso caro, utilizado para o cálculo do COP e não disponível a todos, requer grande espaço físico e pessoas qualificadas – e é por isso que a plataforma do Wii começou a ser estudada; foi conectada com notebook via bluetooth  e colocada sobre uma  plataforma de força de laboratório, onde uma pessoa era avaliada na posição ereta, oscilando sobre elas. A conclusão foi de que a plataforma de videogame conseguia fornecer a mesma trajetória do COP quando comparada à plataforma laboratorial.

“Muita gente começou a utilizar as pesquisas usando a plataforma do Wii como meio de avaliação, com o ponto positivo de também ser muito mais acessível. Surgiram várias pesquisas para pacientes com AVC, Parkinson, avaliação de postural, análise do equilíbrio e até  trajetória do centro de pressão do pé durante a marcha”, explica Pedro.

 

Pioneirismo no desenvolvimento do curso utilizando a plataforma

“Eu estava há muito tempo pesquisando para tentar capturar os dados da plataforma Wii, porém, existiam limitações”, afirma Pedro. Uma delas era a dependência de um software caro, o labview, de engenharia. E foi aí que encontraram um programa desenvolvido pelo laboratório de biomecânica da Universidade do Colorado, por meio do qual os dados são capturados e transferidos para uma planilha de Excel.

E como trabalhar para quantificar, calcular os dados desta planilha? “Havia outros softwares de quantificação; porém, também com preços altos. Então, desenvolvemos outro programa para os cálculos, e firmamos um novo e muito econômico meio de realizar a posturografia: ela identifica nos pacientes avaliados alterações dos sistemas sensoriais (sistemas vestibular, somatossensorial e visual). Por este exame, é possível quantificar qual destes sistemas está contribuindo para a alteração do equilíbrio. Sem a posturografia, o diagnóstico não é tão eficiente!”

A posturografia por plataformas de força laboratoriais é considerada padrão-ouro de análise postural e do equilíbrio e pode ser realizada com a mesma acurácia utilizando-se a plataforma do Wii. Em um segundo, a plataforma do Wii captura 100 quadros por segundo (frequência de aquisição de 100 Hertz), ou seja, aquisição maior do que a de muitas plataformas que  se encontram no mercado para este tipo de análise, que são de 50Hz.  A posturografia permite analisarmos, por exemplo, a amplitude e a velocidade de oscilação do COP, que, se forem elevadas, são um indicativo de instabilidade na tentativa de resgatar seu centro de gravidade.

Por outro lado, na área da saúde, entra o conhecimento – nem sempre amplitude e velocidade maiores do COP são um indicativo de instabilidade. Por exemplo, quem tem Parkinson, tem rigidez muscular e oscila muito pouco na plataforma de equilíbrio, então a velocidade é muito reduzida (quanto menor a amplitude de oscilação e velocidade do COP, maior é a rigidez) – e é aí que entra a importância de se fazer um curso de aperfeiçoamento: “Não adianta pegar os dados, é preciso saber interpretar, ler, utilizar o programa e interpretar os números”, diz o fisioterapeuta.

E é justamente com este objetivo que a Escola de Educação Permanente (EEP) lançou o curso de Posturografia Clínica. O tema e o recurso são complexos, e ainda pouco utilizados porque as pessoas não têm acesso às ferramentas, mas a tendência é que o procedimento se popularize com os baixos custos propiciados pela plataforma associada ao software identificado por Pedro.

As plataformas de força de videogames (PVG) possuem a mesma acurácia das plataformas laboratoriais e têm apresentado resultados confiáveis e seguros. Hoje, são apontadas na literatura como um equipamento promissor, por ser uma ferramenta rica de obtenção de dados com interface de comunicação ao computador via Bluetooth, além de ter baixo custo, ser portátil e validadas para diferentes análises.

Ou seja, são a solução para avaliar e fazer intervenção – identificar a má postura da pessoa e ajudá-la a corrigir. Pacientes tetraplégicos também podem ser avaliados para melhorar a postura da parte superior do corpo, quando colocados sentados sobre a plataforma, por exemplo.

Pedro Claudio Gonsales de Castro é a única pessoa do Brasil a oferecer esse curso, e as inscrições estão abertas para a segunda turma – não perca e se torne um profissional atualizado em posturografia clínica!