A simulação virtual na saúde veio para ficar

simulação virtual na saúde

No começo deste ano, a Escola de Educação Permanente do Hospital das Clínicas (EEP HCFMUSP) se uniu à Fundação Faculdade de Medicina e ao Instituto Simutec para inovar: inaugurou um diferenciado Centro de Treinamento em Realidade Virtual com simulação virtual na saúde.

O espaço, localizado no prédio da EEP, na zona oeste de São Paulo, tem o objetivo de oferecer cursos de formação, extensão e aperfeiçoamento com simuladores de realidade virtual, modelos humanos e sintéticos, equipados com tecnologias de última geração para point of care, cirurgia transoral, videolaparoscopia, ultrassonografia e endoscopia, entre outros – confira no site.

Mas quais os benefícios para quem usa o espaço para treinar? E de que forma a prática médica e a rotina de cuidados ganham com essa ferramenta? Dr. Miguel Prestes Nácul responde a essas e outras questões – ele é coordenador médico do Instituto Simutec em Porto Alegre, cirurgião geral do aparelho digestivo, coordenador do Curso de Pós-Graduação e Cirurgia Minimamente Invasiva da Faculdade de Ciências da Saúde, do Hospital Moinhos do Vento, e cirurgião do Hospital de Pronto-Socorro de Porto Alegre.

Dr. Miguel Prestes Nácul, coordenador médico do Instituto Simutec em Porto Alegre

“A tecnologia e o avanço do desenvolvimento de novas técnicas pedagógicas na área de saúde fizeram com que os alunos, tanto em nível de graduação e pós-graduação, como os profissionais de forma geral ao longo de toda sua vida, migrassem de um tipo de treinamento que era feito baseado na sua própria atividade de prestação de serviço ou em simuladores muito simples, para os que englobam tecnologias maiores”, explica Dr. Miguel.

De acordo com ele, alguns procedimentos, como a videolaparoscopia, cirurgia robótica, endoscopia ou ultrassonografia, hoje, possuem sistemas de simulação, que vão desde os mais simples, até aqueles que apresentam realidade virtual. Eles, inclusive, permitem o treinamento de movimentos e a simulação virtual na saúde de procedimentos cirúrgicos, com gráficos cada vez melhores, de mais qualidade, envolvendo procedimentos e situações complexas.

“É um avanço extraordinário! Além disso, normalmente esses simuladores já englobam um processo de avaliação, então a proficiência do treinamento é realizada de forma objetiva, e isso é muito bom; o professor pode acompanhar a evolução, e o aluno também. Portanto, com essa quantidade de novas técnicas e tecnologias, cada vez maior numa era da responsabilização civil da atividade profissional, a introdução de simulação virtual na saúde diminui o estresse no aprendizado e, no final, gera segurança tanto para os pacientes, como para o próprio cirurgião”, explica.

 

O benefício dos simuladores na saúde

Em médio e longo prazo, a tendência é que mais e mais instituições e profissionais da área se envolvam com a tecnologia, em treinamentos com simuladores – e Dr. Miguel complementa: “Atualmente é praticamente inaceitável manter, principalmente para procedimentos que envolvam métodos invasivos, mesmo que minimamente, um treinamento direto por atuação no paciente apenas com tutoria de profissional qualificado”.

De acordo com o especialista, toda atividade profissional na área de saúde vai ser desenvolvida em simuladores – mesmo havendo determinados sistemas de alto custo, de maneira geral, desde a graduação, essa vai ser a base do treinamento no setor.

A implantação do simulador como ferramenta básica qualifica o método da educação. O ganho é significativo no uso da simulação virtual na saúde em todo processo de educação médica, como ferramenta essencial de treinamento dos alunos. Proporciona mais segurança, gera melhores resultados, reduz os custos e, ainda, é um treinamento interessante, principalmente para uma geração acostumada com o uso da tecnologia e que se adapta rapidamente a este tipo de mudança.

“Com o simulador é possível oferecer um ambiente livre de estresse para o aprendizado, anulando a consequência direta de insucesso, pois o treinamento é só no aparelho, o que possibilita repetir várias vezes sem gastar um novo material – e mais: faz com que esse treinamento possa prescindir do próprio professor, que pode participar do processo em alguns momentos e facilitar esse aprendizado, podendo ser feito inclusive, à distância, com o uso da telemedicina”, conta.

 

O impacto e o futuro da simulação

Há desenvolvimento de simuladores por empresas brasileiras mais simples e que não agregam muita tecnologia, mas que para a videocirurgia são interessantes. Também existem os equipamentos para simulação realística na área de enfermagem, que podem oferecer tecnologias de sistema adaptados e, muitas vezes, atender perfeitamente aos propósitos.

Já os que têm alta tecnologia são simuladores do exterior com um grande custo de aquisição e manutenção, principalmente devido ao desenvolvimento dos gráficos e software. “E é por isso que boa parte das universidades e hospitais fazem parcerias com instituições terceiras, para que viabilize um espaço de utilização destes simuladores”, explica.

Para ele, a preocupação dos Centros de Treinamentos na área de saúde, em todos os níveis, graduação e pós-graduação, é montar ou fazer pareceria com centros de simulação para atender suas necessidades. “Cada vez mais, vão existir simuladores melhores, próximos à realidade, que vão se adaptar à capacidade de avaliar um desempenho e criar cenários diferentes, fazendo com que o profissional treine em situações diversificadas.”

Além disso, o uso dos óculos na realidade virtual vai possibilitar ao aluno entrar em um ambiente real, para que se sinta como se estivesse dentro de um local cirúrgico, com som e imagem. Não será só um procedimento em uma tela e, sim, a experiência real de estar em uma enfermaria, UTI ou bloco cirúrgico, no qual é possível criar um cenário personalizado conforme as decisões feitas pelo próprio indivíduo.

De acordo com Dr. Miguel, talvez o grande avanço que se espera nesse processo de simulação, principalmente nos procedimentos cirúrgicos, é conseguir construir os cenários com a própria anatomia do paciente a ser operado e tratado baseado em exames de imagem, como tomografia e ressonância nuclear magnética. “Provavelmente mais tarde, com a utilização crescente da ferramenta robótica, será possível treinar à exaustão, com o uso de sistemas de inteligência artificial mais avançados, para que esse desempenho seja cada vez melhor.”

Por fim, para ele, existe um potencial bem grande da atenção à distância através da utilização da telemedicina, no qual todo treinamento pode eventualmente ser acompanhado de onde a pessoa estiver, levando conhecimento em lugares de difícil acesso com a tutoria de profissionais mais experientes, e que também podem estar em diferentes locais.